terça-feira, 1 de julho de 2008

Vasco Gonçalves RH

Escrevi este texto em 2002, num dos primeiros números da nova série da «Pessoal». O ponto de partida era um artigo publicado no Verão Quente de 75, imagine-se, por Vasco Gonçalves (1921/ 2005); nem mais nem menos do que na «Pessoal» de então.

O brigadeiro a preto e branco

Um bocadinho antes do Verão Quente, o número quatro de 1975 do Boletim da APDCP (a «Pessoal» de então) revelava, a quem quisesse ler, a fórmula mágica para entrar «nos caminhos da sociedade nova». O seu autor nem bruxo era, ainda ia em brigadeiro, mas mesmo assim dizem que convencia muita gente.
O brigadeiro, no caso, era um senhor chamado Vasco Gonçalves, que às vezes ainda aparece na televisão em imagens a preto e branco, sempre de cabeça meio perdida, mas também o caso, em 1975, raramente era para menos. Ora acontece que no primeiro de Maio desse ano, entre outras preciosidades esquecidas pelo Boletim da APDCP, o dito brigadeiro dizia, como já frisámos na edição anterior, que «a nossa crise económica é, neste momento, o obstáculo fundamental a vencer». Desculpará o leitor a insistência, mas a coisa parece merecedora de bis, ou antes, de alguns desenvolvimentos. Ora, então, o brigadeiro complementava a frase chamando à referida crise «a nossa grande dificuldade» e dizendo que «o tempo que temos para a vencer é limitado». Descontando as deselegâncias de sintaxe, ou talvez não, porque a verdade é que, em tais matérias, de 1975 até agora tem sido sempre a descer, algum paralelo se poderá fazer com os tempos actuais. O Verão Quente da crise de 2002, se bem que mais suportável do que o de 1975, por requerer apenas protector solar, umas bebidinhas frescas e contenção no uso do cartão de crédito, este Verão talvez seja capaz de levar algum «brigadeiro» de agora, devidamente assessorado no português (se calhar via telemóvel, caso se trate de um improviso), a dizer que «a nossa crise económica é, neste momento, o obstáculo fundamental a vencer», que é «a nossa grande dificuldade» e que «o tempo que temos para vencê-la é limitado». O que por certo não dirá nenhum dos «brigadeiros» com que vamos alombando é algo parecido com a continuação do discurso do brigadeiro de 1975. Senão vejamos…
«Ou recuperamos, por nós próprios, com o nosso esforço, ou comprometeremos gravemente a marcha do nosso progresso revolucionário, o futuro da nossa pátria.»
«A nossa luta é decisiva. Apelo aqui, a todos os trabalhadores, a todos os patriotas, para que se lancem na batalha da produção, de cuja vitória depende o futuro da revolução.»
«A batalha da produção é uma etapa necessária para vencer a crise económica e criar condições para o futuro desenvolvimento das economias, numa via para o socialismo.»
«O papel principal, nesta batalha da produção, pertence a vós, trabalhadores que, hoje, dadas as medidas já tomadas, contra o capital monopolista e latifundiário, no sentido do domínio de sectores básicos da produção e do arranque da reforma agrária, têm a garantia de que o seu trabalho e a sua opção reverterão em benefício da colectividade e não em benefício das classes privilegiadas.»
«Que pede então o MFA aos trabalhadores?»
Ao MFA já lá iremos, por agora, e sem que seja para manter o suspense, detenhamo-nos num pormenor, a curiosa insistência no colectivo, «recuperamos», «por nós próprios», «o nosso esforço», «o nosso progresso», «a nossa pátria», «a nossa luta», «todos os trabalhadores», «todos os patriotas», «vós, trabalhadores», «em benefício da colectividade». Não será por certo má a ideia de colectivo, mas a que em 1975 estava implícita nos excertos do discurso que o Boletim da APDCP reproduzia lembrava mais aquilo do «nosso povo, nosso povo, nosso povo» do que outra coisa.
Quanto ao MFA, o que é que pedia então aos trabalhadores, e isto segundo as palavras do brigadeiro? Aos trabalhadores, note-se, a quem passado um quarto de século está mais na moda chamar colaboradores ou até, imagine-se, capital intelectual; coisa que ao brigadeiro, por certo deverá fazer confusão, especialmente se pensarmos na ideia que está subjacente a «essa coisa» do capital intelectual, a de valorização das pessoas como principal activo (palavra um bocadinho manhosa, mas enfim...) das empresas (ou organizações, já agora...). A continuar nesta linha, ainda algum guru chamará às pessoas, aos colaboradores, ao capital intelectual, a tudo isso ainda algum guru mais desarvorado – e perdido nas referências históricas, como convém a qualquer guru que se preze –, ainda chamará «grande capital». E então, aí é que há-de ser bonito, o brigadeiro de certeza ficará mesmo confuso, e depois, se lhe pedirem opinião... Bom, depois, ele e esse «grande capital», e o «grande capital» que no tempo dele era «monopolista e latifundiário»; e, afinal, o «grande capital» a significar, simplesmente, pessoas, colaboradores, enfim, trabalhadores, o «nosso povo, nosso povo, nosso povo...»
Mas adiante, o que o MFA pedia ao grande capital, perdão, aos trabalhadores, nem mais nem menos, era «coesão e unidade em torno de objectivos verdadeiramente nacionais, objectivos estes em cuja determinação participarão [os trabalhadores, já se vê]; subalternização das lutas políticas partidárias, no seio das organizações sindicais, lucidez em face da realidade nacional; realismo reivindicativo; análise e discussão ideológica da proposta esquerdista e anarquizante e dos perigos a que pode conduzir a sua falta de capacidade real para solução dos problemas correntes; combate aturado aos divisionistas e provocadores; trabalho militante exemplarmente revolucionário; encarar a valorização profissional como uma opção verdadeiramente revolucionária; compreensão de que, sem a reconstituição do aparelho económico e do aparelho do Estado, sem o desenvolvimento económico, não é possível, nem ao Governo Provisório nem ao MFA, corrigir as graves distorções salariais herdadas do fascismo».
E mais não pedia o MFA, pelo menos nas páginas do Boletim número quatro/ 75 da APDCP. Também, convinha não abusar.
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